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O crime aconteceu no momento em que o médico Luiz Augusto Rodrigues e um amigo buscavam a Ranger após deixarem um bar na 315 Sul (foto: Arquivo Pessoal)

Mulher de médico morto por PM reclama de falta de informações sobre o crime

Durante abordagem na 315 Sul, policial militar matou com um tiro o médico Luiz Augusto Rodrigues, 45 anos. No entanto, a versão de um PM da reserva, amigo da vítima e testemunha do crime, e da corporação se contradizem

As circunstâncias da morte do médico Luiz Augusto Rodrigues, 45 anos, seguem sem esclarecimentos. Um policial militar o baleou durante uma abordagem, na madrugada desta quinta-feira (28/11), na 315 Sul. A vítima, acompanhada de um amigo, um sargento da PM aposentado de 51 anos, deixava um bar da comercial e seguia para o veículo, uma Ranger estacionada nas imediações. Nesse momento, os militares chegaram ao local e um deles disparou contra a vítima. A PM alega que o atirador agiu em legítima defesa, pois o conhecido de Luiz teria apontado uma arma de fogo para a equipe policial. Entretanto, a versão é contestada pelo sargento, que informou estar deitado no chão na hora do disparo fatal.
Agentes da 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul) investigam o caso. “Todos os dados preliminares foram colhidos, e as perícias, requisitadas”, limitou-se a informar a nota oficial da corporação. Na versão da Polícia Militar, Luiz e o sargento da reserva estavam em atitude suspeita próximo ao veículo, momento em que a equipe os abordou, depois da meia-noite. Em seguida, o militar aposentado teria apontado um revólver calibre 38 para os PMs, e um deles disparou duas vezes. Um dos tiros atingiu a cabeça do médico. “Diante do cenário, os policiais informaram que tiveram de reagir em legítima defesa”, reforçou a PM, em comunicado oficial.
Ainda de acordo com a Polícia Militar, os policiais acionaram o Corpo de Bombeiros imediatamente, mas Luiz morreu no local. Em seguida, peritos da Polícia Civil chegaram à 315 Sul, e os envolvidos seguiram para a delegacia. “A PM lamenta profundamente o desfecho da ocorrência e informa que vai instaurar, ainda hoje (ontem), um Inquérito Policial Militar para apurar todas as circunstâncias”, acrescentou, em nota oficial.
Sobre a situação dos policiais militares que participaram da ocorrência, a corporação destacou que a “situação está sendo avaliada, e os envolvidos poderão ser afastados”. Além disso, a PM destacou que eles podem passar por avaliação psicológica, procedimento adotado em ocorrências que envolvem disparo de arma de fogo com vítima. O Correio procurou a Secretaria de Segurança Pública, mas a pasta não respondeu aos questionamentos da reportagem e se limitou a encaminhar a mesma nota emitida pela PM.
Versão contestada
O amigo de Luiz contesta a versão da Polícia Militar. O advogado Pedro Júlio Melo Coelho alega que o sargento aposentado não apontou a arma para os militares. Ele explicou que estava com o armamento em mãos, pois, pouco antes de a equipe da PM aparecer no local, um carro preto passou na 315 Sul, fazendo com que o militar e o médico pensassem se tratar de uma tentativa de assalto.
Amigos há oito anos, o sargento e o médico marcaram de assistir a uma partida de futebol no bar da 315 Sul. O militar estava acompanhado da mulher, que não bebe; por isso, ficaria responsável por dirigir a Ranger, como detalhou o advogado Pedro Júlio. “Ao ir embora, Luiz pediu ao colega que o acompanhasse até a Ranger, pois o veículo estava afastado do estabelecimento. A mulher do sargento ficou atrás, pois queria comprar comida. Assim, eles seguiram até o estacionamento, próximo ao Teatro dos Bancários”, explicou.
“Luiz abriu a porta do veículo, mas continuou conversando com o amigo. Nesse momento, eles viram um carro preto passando. Uma das pessoas ficou olhando. Isso levantou a suspeita do sargento, que trabalhou como policial militar por mais de 30 anos. Pensaram que seriam roubados. Assim, ele pegou o revólver e manteve-o no peito, em uma posição típica de defesa. Esse automóvel fez o retorno no balão do teatro e seguiu reto. Logo em seguida, o veículo da PM chegou”, contou Pedro Júlio.
Conforme relato do sargento ao advogado, não houve reação. “O meu cliente não soube estimar quantos militares seriam, mas eles desceram do veículo armados. Teriam gritado: ‘Polícia, polícia’. E, sem contestar, o sargento jogou a arma, começou a se deitar no chão, informando que também era policial militar. Ele não ouviu nenhum disparo. O sargento só soube do tiro, porque, ao ser algemado e levantado pelos companheiros de corporação, viu Luiz no chão. Ele pediu para que ajudassem o amigo, chamando o socorro, o que os militares fizeram”, acrescentou o advogado.
Ainda de acordo com o defensor, a mulher do sargento reformado chegou ao carro do médico após os disparos. Ela e o marido foram encaminhados para a 1ª DP, onde prestaram depoimento. O militar aposentado é tratado como testemunha. “Não faz sentido um policial apontar uma arma contra os próprios colegas de corporação. Em nenhum momento, houve ameaça por parte do meu cliente. Ele está completamente arrasado com tudo, pois, além de perder um amigo próximo, houve um atrito dentro da PM. Não tenho como descrever o quão difícil está sendo para ele”, finalizou.

A vítima
Luiz Augusto Rodrigues

Luiz Augusto Rodrigues
(foto: Arquivo Pessoal)

» Tinha 45 anos

» Trabalhava como médico

» Nasceu em Ceres (GO)

» Deixa a mulher e dois filhos

Enterro será em Ceres
Um familiar do médico Luiz Augusto Rodrigues disse que a família se mobiliza para acalmar os pais da vítima, de 75 e 85 anos. Eles moram em uma fazenda, no interior de Goiás. Nascido em Ceres (GO), boa parte dos parentes ainda mora na cidade, à exceção de uma irmã, que vive em Brasília. Por causa disso, o velório da vítima será realizado hoje na cidade goiana, no Cemitério Verdes Vales. Até o fechamento desta edição, o horário da cerimônia ainda não havia sido marcado.
O médico deixa dois filhos e a mulher. “Era uma pessoa maravilhosa, de muita ação, um homem que estava buscando Deus e mudando de vida”, ressaltou a empresária Viviane Rodrigues, 44, mulher de Luiz, em entrevista ao Correio. O médico era voluntário da iniciativa solidária Filhos do Brasil, da igreja Comunidade das Nações. O grupo realiza projetos sociais e presta apoio a instituições e comunidade carentes.
“Eu conhecia o Luiz havia 20 anos. A gente se conheceu no Goiás, no último dia de um carnaval. Reencontramo-nos pela última vez, na porta de uma igreja, na Asa Sul. Pareceu destino, ele estacionou o carro atrás do meu”, lembrou Viviane. A empresária reclamou que a polícia não forneceu informações concretas sobre a morte do marido. “Não sei o que aconteceu. Só falaram que ele levou um tiro de graça”, lamentou. Inconformada, a mulher procurou auxílio jurídico.
Querido
Luiz atendia em duas clínicas, uma na Asa Norte e outra em Taguatinga. Além disso, há pouco tempo, abriu o próprio negócio, no Plano Piloto. Dono de um dos consultórios em que o médico atuava, o médico João Bosco afirmou que o funcionário era muito tranquilo. “Luiz era agradável. Nunca escutei reclamações sobre ele. Ainda não sabemos o que aconteceu.” Colegas de trabalho e pacientes de Luiz o definem como dedicado e um exemplo a ser seguido. “Ele era muito atencioso. Um profissional muito competente. Uma pessoa tranquila e de bem com a vida”, a amiga Ludmilla Menezes, 44.
Além do trabalho, Luiz tinha outra paixão: o futebol. Torcedor do Flamengo, ele frequentava bares na Asa Sul para acompanhar as partidas.

Fonte:correiobraziiense

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