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Daíse Santos, lateral esquerda do Corinthians sub-17 e prima da Marta — Foto: Divulgação

Pelo Corinthians, Daíse, 15 anos, repete início da trajetória da prima Marta e emociona a Rainha

Prima da Marta passou em peneira e começou a jogar pelo sub-17 do Timão com apenas 14 anos. Esporte Espetacular mostra quem é a revelação que leva o “sangue real” da craque


O que é capaz de emocionar uma atleta seis vezes eleita a melhor jogadora do mundo, artilheira de todas as Copas do Mundo com 17 gols, vice-campeã olímpica duas vezes e vice mundial uma vez, tricampeã da Copa América e bi do Pan-Americano pela Seleção Brasileira?
– Pô… (chorando) Aí você me pega, né? Ela tem a mesma idade que eu tinha quando saí de Dois Riachos (interior de Alagoas), então, é muito emocionante mesmo de longe poder estar acompanhando essa trajetória dela, esse sonho dela de viver do futebol, e torcendo mesmo de longe pra que dê certo, tanto pra ela quanto pra outras meninas do Brasil – disse Marta, chorando, em entrevista ao Esporte Espetacular.
Ela, citada pela Rainha, é Daíse Santos, 15 anos, lateral-esquerda do time sub-17 do Corinthians. A equipe do Esporte Espetacular foi até a casa dela, em Perus, na Zona Norte de São Paulo, para mostrar quem é a prima que repete a trajetória do início da carreira de Marta e emociona a Rainha.
Às 5h em ponto, Daíse já está pronta para ir treinar, com agasalho do clube. Diariamente, ela acorda por volta das 4h30, pega ônibus até a estação Perus da CPTM, faz baldeação no metrô da Barra Funda e vai até o Carrão, estação mais próxima do Parque São Jorge. Vão mais 20 minutos de caminhada para se reunir com a equipe sub-17 e começar a treinar as 7h30. Ao todo, ida e volta, são quase 80km por dia.
– Ela é a primeira a acordar, cinco horas da manhã, toma banho, se arruma, vamos lá, “vambora”. Tem um ano que está aqui, nunca atrasou, dá o horário, ela acorda: “Tio, vamos lá!”. Por isso que eu gosto e apoio muito ela – diz Adailton Freitas, 43 anos, primo de Marta e responsável por cuidar de Daíse em São Paulo, já que os pais da lateral ainda moram em Dois Riachos, interior de Alagoas.
– Antes eu ficava meio incomodada porque o trem é muito lotado, apertado… E sentia muita saudade de casa, da minha família, dos meus amigos. Mas com o tempo eu me acostumei. E eu chego no treino, com as meninas, são todas amigas, eu me sinto em casa aqui. O que a pessoa gosta de fazer, ela faz com vontade, né? Então todos os dias eu venho feliz e acordo feliz, porque é o que eu gosto de fazer – afirma Daíse.
– Fico feliz de poder fazer isso por ela, já que era muito novo e não tive condições de fazer pela Marta quando eu vim morar aqui em São Paulo e ela saiu de Dois Riachos pra tentar ser profissional – explica Adailton.
Daíse treina pelo Corinthians desde fevereiro do ano passado, quando foi aprovada em uma peneira que reuniu cerca de 800 meninas. O clube estava montando o time sub-17. Técnica da equipe e responsável por selecionar as atletas e montar o time, Daniela Alves também foi jogadora, eleita a sexta melhor do mundo em 2008, e teve de encerrar a carreira precocemente aos 25 anos por causa de uma entrada violenta da norte-americana Abby Wambach que provocou fratura na tíbia e rompimento de ligamentos do joelho direito. Dani jogou com Marta na Seleção e conquistou a medalha de Prata nas Olímpiadas de Atenas (2004) e de Pequim (2008).
Peneira com 800 meninas no Corinthians
Marta entrou em contato com Dani Alves para falar que a prima iria participar da peneira também.
– Eu atendei, a gente conversou e eu falei: “Se ela jogar bem, vai ficar. Se ela jogar mal, vai voltar. E a Marta: “Pode ter certeza disso, conheço você. Ainda bem que você sabe”. E assim foi – conta Dani.
– E aí, quando ela (Daíse) bateu na bola, me lembrou diretamente a Marta no início quando ela veio para São Paulo. A forma de bater, de deitar o corpo, batida de esquerda. Quando a Marta chegou era igualzinho. Me lembrou muito a Marta.
Dani diz que a personalidade de Daíse é bem diferente da de Marta. A Rainha era “bicho solto”, não levava desaforo. A prima mais nova é mais “mansa”, quieta.
– Fora de campo, ela é quietinha. Mas no grupo ela se solta, dentro de campo vira um monstro. Ela tem 1,60m, mas parece que tem 2 metros. Ela não tem medo, vai pra cima, encara, tem uma perninha esquerda bem habilidosa – elogia a treinadora.
O Corinthians feminino de base, com Daíse, disputou o Campeonato Paulista Sub-17 e os Brasileiros Sub-16 e Sub-18 e não conquistou título ainda, mas os frutos já começam a ser colhidos. Entre novembro do ano passado e janeiro deste ano, já foram convocadas para a Seleção Brasileira sub-17 a goleira Isabella, a lateral Joyce, a atacante Kamile e a meia Vitoria Amaral. Esta última, também de 15 anos apenas, é uma das amigas mais próximas de Daíse e mora em Caieiras, cidade da Grande São Paulo, que faz divisa com Perus.
Todos os dias, as duas se encontram na estação Perus da CPTM, vão para o treino e voltam juntas pra casa. Vitoria espera voltar pra Granja Comary, centro de treinamento da CBF, com a parceira.
– Ela é seleção! Pela idade dela é diferenciada! Eu gosto muito dela, é engraçada demais, a gente se diverte – diz Vitoria Amaral.

Daíse e Vitoria Amaral, aos 15 anos, no sub-17 do Corinthians — Foto: Divulgação

O descobridor e o apoio da família
O talento de Daíse também passou pela visão de José Freitas, o Tota, o técnico que descobriu Marta e a treinou no CSA de Dois Riachos.
– É demais a semelhança entre elas, porque as duas jogam com a esquerdinha e têm facilidade de conduzir a bola com as duas pernas. Trabalhei muito pouco com a Daíse, mas vi o retrato da Marta com a bola – diz Tota.
– A vontade da Daíse é demais, ela gosta da bola, de jogar. Ela é uma semente que está germinando.
Mas foi Davi, irmão de Daíse, que mudou a vida dela. Foi ele quem ficou sabendo que o Corinthians havia aberto inscrições para selecionar atletas para criar um time de base no clube. Avisou o pai Sebastião, que acionou a prima Marta.
– Eu perguntei pra Marta se ela poderia ajudar a Daíse a ir e ela disse que ajudaria, claro. Pediu que a gente fizesse a inscrição direitinho que mandaria as passagens. E nós fomos – conta Sebastião de Souza.
– No primeiro dia, a gente chegou e tinha umas 500 meninas lá… Eu perguntei se ela estava nervosa. E ela: “Tô não, pai, pode deixar comigo!”. Ela passou no primeiro dia, no segundo, no terceiro, até a quarta fase… E deu tudo certo, graças a Deus.

O campinho do CSA de Dois Riachos, onde Marta e Daíse “nasceram” para o futebol — Foto: Josualdo Moura.


O campinho do CSA de Dois Riachos, onde Marta e Daíse “nasceram” para o futebol — Foto: Josualdo MouraO campinho do CSA de Dois Riachos, onde Marta e Daíse “nasceram” para o futebol — Foto: Josualdo Moura
O campinho do CSA de Dois Riachos, onde Marta e Daíse “nasceram” para o futebol — Foto: Josualdo Moura
A mãe se emociona ao falar da filha. Com muita saudade.
– Eu tenho orgulho de ver ela com a camisa do Corinthians, mas tenho certeza de que ela pode alcançar algo maior, uma Seleção Brasileira. Eu torço muito por ela e desejo que ela realize o sonho dela que é se tornar uma jogadora de futebol – diz a mãe.
Daíse tem fé.
– Eu sei que um dia vou chegar na Seleção. É o meu sonho e o da minha família também.

A mãe de Daíse, Rosicleide, o irmão Davi e o pai Sebastião de Souza, em Dois Riachos — Foto: Josualdo Moura.

Fonte: Ana Canhedo, Marco Aurélio Souza e Maurício Oliveira — São Paulo

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